2 Crônicas começa com Salomão diante do altar em Gibeão e termina com Ciro, rei da Pérsia, autorizando o retorno dos exilados e a reconstrução da casa do Senhor em Jerusalém. Entre essas duas cenas, o livro acompanha a construção do templo, a glória do reinado salomônico, a divisão do reino, os reis de Judá, reformas interrompidas, idolatria persistente, destruição babilônica e uma abertura inesperada para recomeço.
O livro continua diretamente 1 Crônicas. Se a primeira parte reconstruiu Israel por genealogias, Davi, levitas, Jerusalém e preparação do templo, 2 Crônicas mostra o que aconteceu com essa herança. A pergunta muda de forma, mas não de peso: o povo que recebeu templo, culto organizado e promessa davídica conseguiu viver de modo fiel?
Na Bíblia hebraica, 1 e 2 Crônicas formam uma única obra chamada Divrei Hayamim, “acontecimentos dos dias” ou “relatos dos tempos”. A divisão em dois livros veio da tradição grega e latina. O segundo volume, na forma cristã, cobre o reinado de Salomão e depois concentra quase toda a narrativa em Judá. O reino do norte aparece de modo seletivo, geralmente quando interfere na história de Jerusalém, do templo ou dos reis davídicos.
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Depois de 1 Crônicas reconstruir a memória, 2 Crônicas testa essa memória na história
2 Crônicas deve ser lido como continuação da releitura pós-exílica iniciada em 1 Crônicas. Reis havia respondido a uma pergunta dura: por que Samaria e Jerusalém caíram? Crônicas pergunta algo complementar: como a comunidade pode reencontrar identidade, culto e esperança depois da queda?
Essa diferença explica o foco do livro. 2 Crônicas não tenta repetir 1 e 2 Reis de forma completa. Ele seleciona episódios, reorganiza ênfases e destaca temas que importavam especialmente para uma comunidade marcada pelo exílio: templo, oração, arrependimento, levitas, Páscoa, reformas, genealogias, Jerusalém e continuidade davídica.
A pesquisa histórico-literária costuma situar Crônicas em ambiente pós-exílico, provavelmente no período persa ou próximo dele. O texto não fornece uma data moderna de composição, mas sua preocupação com templo, funções levíticas, registros familiares e retorno combina com uma comunidade que já conhecia a destruição babilônica e precisava reconstruir sua vida sob domínio estrangeiro.
A força do livro está nessa perspectiva. 2 Crônicas olha para trás, mas não por nostalgia. Ele relê a monarquia de Judá como um arquivo de advertências e possibilidades: quando reis buscaram o Senhor, houve restauração; quando abandonaram a aliança, a queda se tornou inevitável.
Salomão aparece como rei do templo
O início de 2 Crônicas apresenta Salomão em Gibeão, diante do altar de bronze da tenda do encontro. Ali ele pede sabedoria e conhecimento para governar o povo (2 Crônicas 1:10). A cena ecoa 1 Reis 3, mas Crônicas coloca a narrativa de Salomão em uma moldura fortemente cultual.
Salomão não é apresentado primeiro como político internacional, diplomata ou acumulador de riqueza. Ele é o rei que deve construir a casa do Senhor. Sua sabedoria está ligada à responsabilidade de governar o povo e realizar o projeto preparado por Davi.
A construção do templo ocupa os capítulos seguintes. Salomão negocia com Hirão, rei de Tiro, mobiliza trabalhadores, usa madeira, pedra, ouro, bronze e artesãos especializados. A participação fenícia mostra que a obra nasce em uma rede regional de técnicas, materiais e relações políticas do antigo Levante.
O termo hebraico bayit, “casa”, continua decisivo. Em 2 Samuel 7 e 1 Crônicas 17, Deus prometeu fazer uma “casa” para Davi, isto é, uma dinastia. Agora, em 2 Crônicas, Salomão constrói a “casa” do Senhor. Templo e dinastia permanecem ligados: a casa de Deus em Jerusalém e a casa de Davi sustentam a identidade de Judá.
O templo é centro da esperança, mas não garantia automática
A dedicação do templo em 2 Crônicas 5–7 é uma das cenas centrais do livro. A arca é levada ao Santo dos Santos, músicos e levitas louvam, e a glória do Senhor enche a casa. A narrativa retoma a tradição do tabernáculo: a presença divina, antes associada à tenda no deserto, agora é vinculada ao templo em Jerusalém.
Crônicas dá grande destaque aos levitas músicos. Címbalos, alaúdes, harpas e trombetas acompanham o louvor. Esse detalhe não é ornamentação. Para Crônicas, culto organizado, música, serviço levítico e ordem litúrgica são parte da reconstrução da identidade de Israel.
A oração de Salomão reconhece que Deus não pode ser contido por templo algum: “os céus e até os céus dos céus não te podem conter” (2 Crônicas 6:18). A casa de Jerusalém é lugar de oração, arrependimento e mediação, não prisão da presença divina.
A resposta divina em 2 Crônicas 7 contém uma das frases mais conhecidas do livro: “se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, orar, buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos...” (2 Crônicas 7:14). No contexto original, a promessa está ligada ao templo, à terra, à seca, à praga, ao pecado nacional e à possibilidade de restauração. Não é um slogan político genérico; é uma palavra dirigida a uma comunidade de aliança, convocada ao arrependimento concreto.
O mesmo discurso também contém advertência. Se o povo abandonar o Senhor e servir outros deuses, o templo poderá se tornar ruína e motivo de espanto entre as nações (2 Crônicas 7:19-22). A casa sagrada é dom, mas não blindagem automática.
A glória de Salomão é mais limpa em Crônicas — e isso é uma escolha editorial
2 Crônicas apresenta Salomão em tom mais idealizado que 1 Reis. A rainha de Sabá visita Jerusalém, admira sua sabedoria, sua casa, seus servos e o culto organizado. O rei aparece cercado de riqueza e reconhecimento internacional.
Mas Crônicas omite a queda de Salomão narrada em 1 Reis 11: suas muitas mulheres estrangeiras, os cultos rivais e o juízo que levaria à divisão do reino. Essa ausência não deve ser tratada como descuido. É uma escolha literária.
1 Reis usa Salomão para mostrar como o auge da monarquia continha sementes de ruptura. 2 Crônicas usa Salomão para destacar a construção do templo e o cumprimento da preparação davídica. O livro não está interessado em repetir toda a crítica de Reis; seu foco é o templo como centro da identidade pós-exílica.
Essa diferença surpreende leitores atentos. A Bíblia preserva dois retratos de Salomão: um mais ambíguo, em Reis; outro mais cultual e idealizado, em Crônicas. A tensão entre os dois não precisa ser apagada. Ela mostra que os livros bíblicos não são cópias mecânicas uns dos outros, mas interpretações teológicas da história.
A divisão do reino é contada a partir de Judá
Depois da morte de Salomão, Roboão enfrenta a crise que dividirá o reino. Como em 1 Reis 12, o povo pede alívio do jugo pesado. Roboão rejeita o conselho dos anciãos e segue a orientação dos jovens, prometendo mais dureza. A resposta leva à ruptura.
Mas 2 Crônicas conta a divisão a partir de Judá. O interesse não recai sobre toda a história do reino do norte, mas sobre o que a ruptura significa para Jerusalém, para a casa de Davi e para o templo. Jeroboão e Israel aparecem como contraponto cultual, especialmente pela instituição de sacerdotes próprios e rejeição aos levitas ligados ao templo (2 Crônicas 11:13-17).
Esse ponto é central. Crônicas fala em “todo Israel”, mas organiza sua narrativa em torno de Judá. O norte não desaparece completamente: levitas e pessoas de outras tribos que buscam o Senhor são apresentados como se aproximando de Jerusalém. A unidade ideal de Israel é reconstruída não pela política do reino do norte, mas pelo culto legítimo centralizado na casa do Senhor.
A divisão, portanto, é mais que evento político. Em Crônicas, ela se torna teste de fidelidade cultual.
Reis são avaliados por buscar ou abandonar o Senhor
Um dos verbos-chave de Crônicas é darash, “buscar”. Reis são avaliados não apenas por vitórias, obras ou alianças, mas por buscarem ou deixarem de buscar o Senhor. Essa ênfase dá ao livro uma cadência própria.
Roboão se fortalece, mas depois abandona a lei do Senhor. A invasão de Sisaque, rei do Egito, vem como juízo, mas a humilhação dos líderes de Judá reduz a destruição (2 Crônicas 12). O padrão aparece com clareza: infidelidade gera crise; humilhação pode abrir espaço para misericórdia.
A campanha de Sisaque tem paralelo histórico importante. O faraó Shoshenq I registrou uma campanha no Levante em inscrição no templo de Karnak. A lista egípcia não confirma todos os detalhes bíblicos e não menciona Jerusalém de modo consensual, mas situa uma ação militar egípcia compatível com a memória de pressão sobre a região no período atribuído a Roboão.
Essa combinação entre juízo, humilhação e alívio parcial é típica de Crônicas. O livro não trabalha apenas com queda inevitável. Ele procura mostrar que a resposta humana à correção divina importa.
Abias, Asa e Josafá: reformas, guerras e confiança
Abias, filho de Roboão, recebe em 2 Crônicas um discurso muito mais favorável do que em Reis. Ele confronta Jeroboão e apresenta Judá como guardião do culto legítimo, com sacerdotes descendentes de Arão e levitas em seus ofícios. A batalha contra Israel é narrada como vitória concedida porque Judá clamou ao Senhor (2 Crônicas 13).
Asa, seu sucessor, é apresentado como rei reformador. Remove altares estrangeiros, ordena que Judá busque o Senhor e fortalece cidades. Quando enfrenta Zerá, o etíope ou cuxita, Asa ora reconhecendo que Deus pode salvar com muitos ou poucos (2 Crônicas 14:11). A vitória reforça a teologia da confiança.
Mas Asa também termina de forma ambígua. Em crise posterior, recorre à Síria em vez de confiar no Senhor, rejeita a repreensão do vidente Hanani e, em sua doença, busca médicos sem buscar o Senhor (2 Crônicas 16). O texto não condena a medicina em si como prática geral; o problema narrativo é a substituição da confiança no Senhor por autonomia política e religiosa.
Josafá, por sua vez, recebe destaque por reformas judiciais e ensino da lei. Ele envia oficiais, levitas e sacerdotes para ensinar nas cidades de Judá (2 Crônicas 17). Esse detalhe é forte: Crônicas valoriza não apenas templo e sacrifício, mas instrução pública da Torá.
Ao mesmo tempo, Josafá se alia à casa de Acabe, e isso o compromete. Crônicas preserva a tensão: um rei pode ser piedoso em várias áreas e ainda agir de modo perigoso por alianças imprudentes.
A batalha de Josafá mostra culto como resposta à ameaça
2 Crônicas 20 narra uma ameaça contra Judá por povos vindos de Moabe, Amom e Seir. Josafá proclama jejum, reúne o povo e ora no templo, lembrando a promessa, a terra e a impotência humana diante da multidão inimiga.
A frase “não sabemos nós o que fazer, porém os nossos olhos estão postos em ti” (2 Crônicas 20:12) resume a teologia do episódio. A resposta vem por meio de Jaaziel, levita, que anuncia que a batalha pertence a Deus. Cantores vão à frente do exército, louvando o Senhor, e os inimigos entram em confusão.
Para Crônicas, música e culto não são decoração religiosa. Eles podem se tornar linguagem pública de confiança em momento de ameaça nacional. O episódio mostra levitas no centro da ação, não como personagens periféricos.
A cena também reforça uma das marcas do livro: a comunidade responde à crise reunindo oração, templo, palavra profética, levitas e louvor.
Atalia, Joás e a casa de Davi preservada no templo
A história de Atalia e Joás, também conhecida de 2 Reis 11, ganha em Crônicas forte dimensão cultual. Atalia tenta eliminar a descendência real, mas Joás é escondido no templo por Jeosebate e pelo sacerdote Joiada (2 Crônicas 22–23).
A sobrevivência de Joás preserva a casa de Davi. O templo, nesse episódio, não é apenas lugar de sacrifício; é espaço onde a promessa dinástica é protegida. Joiada organiza levitas, sacerdotes e chefes para restaurar o rei legítimo.
Joás começa bem sob orientação de Joiada e restaura o templo. Mas depois da morte do sacerdote, ouve líderes de Judá, abandona a casa do Senhor e permite idolatria. Zacarias, filho de Joiada, denuncia o povo e é apedrejado no pátio do templo por ordem do rei (2 Crônicas 24:20-22).
A cena é uma das mais graves de Crônicas. O rei preservado pelo templo termina derramando sangue profético no próprio espaço sagrado. O livro mostra que proximidade institucional com o culto não garante fidelidade duradoura.
Uzias: sucesso, orgulho e limite sacerdotal
Uzias, também chamado Azarias em Reis, aparece como rei forte, construtor e militarmente bem-sucedido. Ele fortalece torres, organiza exército, desenvolve equipamentos e prospera enquanto busca o Senhor (2 Crônicas 26).
Mas o sucesso gera orgulho. Uzias entra no templo para queimar incenso, função reservada aos sacerdotes. Azarias e outros sacerdotes o confrontam, afirmando que aquilo não lhe cabia. O rei se enfurece e é ferido com tzara‘at, termo bíblico frequentemente traduzido como lepra, embora não corresponda automaticamente à hanseníase moderna.
O episódio é decisivo para a teologia de Crônicas. Mesmo o rei davídico tem limites diante do sagrado. A monarquia não absorve o sacerdócio. Poder político e função cultual não são intercambiáveis.
Uzias termina separado, e seu filho Jotão governa a casa real. A história ensina que o sucesso concedido por Deus pode se tornar perigo quando o rei ultrapassa limites estabelecidos para o culto.
Acaz: o colapso antes da grande reforma de Ezequias
Acaz é apresentado como um dos reis mais negativos de Judá. Ele faz imagens para baalins, queima incenso, sacrifica filhos e se entrega a práticas associadas aos povos vizinhos (2 Crônicas 28). Judá sofre derrotas, inclusive diante de Israel e da Síria.
Um detalhe importante aparece quando o profeta Odede confronta o exército do reino do norte por levar cativos de Judá. Alguns líderes de Efraim respondem e cuidam dos prisioneiros, vestindo, alimentando e devolvendo-os (2 Crônicas 28:9-15). A cena é rara e significativa: mesmo no reino do norte, frequentemente visto de modo negativo em Crônicas, há espaço para resposta justa à palavra profética.
Acaz, porém, aprofunda a infidelidade. Fecha portas do templo, faz altares em Jerusalém e busca ajuda assíria sem verdadeira libertação. Seu reinado representa uma quase desmontagem da identidade cultual de Judá.
Essa queda prepara o contraste com Ezequias.
Ezequias reabre o templo e chama “todo Israel”
Ezequias recebe enorme destaque em 2 Crônicas 29–32. Seu primeiro ato é reabrir as portas do templo e restaurar o culto. Ele convoca sacerdotes e levitas, reconhece a infidelidade dos pais, purifica a casa do Senhor e restabelece sacrifícios, música e louvor.
A reforma é descrita como restauração comunitária. Levitas aparecem com zelo especial. Cantores, instrumentos de Davi e Asafe, sacrifícios e assembleia compõem uma cena de reconstrução litúrgica.
Em seguida, Ezequias convoca uma Páscoa em Jerusalém e envia cartas não apenas a Judá, mas também a remanescentes de Israel, incluindo Efraim e Manassés (2 Crônicas 30). Muitos zombam, mas alguns se humilham e vêm. Essa é uma das expressões mais fortes do ideal de todo Israel em Crônicas.
A Páscoa de Ezequias mostra que a restauração não é apenas sulista. Mesmo depois da queda ou enfraquecimento do norte, Crônicas imagina uma unidade cultual possível em torno de Jerusalém. O templo funciona como centro de retorno, memória e reconciliação.
Senaqueribe e a confiança de Ezequias
2 Crônicas 32 narra a invasão de Senaqueribe, rei da Assíria. O episódio é conhecido também de 2 Reis 18–19 e Isaías 36–37. Em Crônicas, o foco recai sobre a preparação de Ezequias, sua confiança em Deus e a humilhação do poder assírio.
Ezequias fortalece muros, organiza oficiais e tapa fontes fora da cidade. A referência dialoga com obras hidráulicas de Jerusalém, associadas tradicionalmente ao túnel de Ezequias. A Inscrição de Siloé, embora não cite Ezequias nominalmente, descreve a escavação de um túnel por duas equipes, dado compatível com obras de abastecimento em período de ameaça assíria.
As inscrições assírias de Senaqueribe, como o Prisma de Taylor, afirmam que Ezequias foi cercado em Jerusalém “como pássaro em gaiola”. Os relevos de Laquis mostram a conquista assíria de uma cidade importante de Judá. Esses dados extrabíblicos confirmam a gravidade da pressão assíria, embora a Bíblia enfatize que Jerusalém não caiu nesse episódio.
Crônicas lê o livramento como resposta à confiança de Ezequias e à oração. Mais uma vez, império e fé aparecem no mesmo cenário: a geopolítica é real, mas o livro interpreta os acontecimentos pela relação de Judá com o Senhor.
Manassés: o grande diferencial entre Reis e Crônicas
Manassés é uma das maiores diferenças entre 2 Reis e 2 Crônicas. Em Reis, ele é o rei cujo pecado torna inevitável o juízo sobre Judá. Em Crônicas, ele também é extremamente ímpio: reconstrói altos, ergue altares, pratica adivinhação, coloca imagem na casa de Deus e seduz Judá ao mal (2 Crônicas 33).
Mas Crônicas acrescenta algo decisivo: Manassés é levado preso pelos assírios, se humilha profundamente e ora. Deus o ouve, e ele retorna a Jerusalém. Depois disso, remove deuses estranhos, restaura o altar do Senhor e ordena que Judá sirva ao Deus de Israel.
Essa diferença não deve ser harmonizada como se fosse detalhe menor. Ela revela o projeto teológico de Crônicas. Reis usa Manassés como símbolo do ponto de não retorno que explica a queda. Crônicas o apresenta como exemplo extremo de que até um rei profundamente culpado pode encontrar restauração ao se humilhar.
Essa é uma das chaves do livro. Para uma comunidade pós-exílica, Manassés funciona como advertência e esperança. Se até ele pôde se humilhar e ser ouvido, a comunidade ferida pelo exílio também podia buscar restauração.
Josias: o livro encontrado e a reforma que chega tarde
Josias aparece como rei fiel, reformador e sensível à palavra escrita. Durante a restauração do templo, Hilquias encontra o livro da lei. Quando o texto é lido, Josias rasga suas vestes e busca orientação.
A profetisa Hulda confirma que o juízo virá, mas afirma que Josias será poupado por ter se humilhado diante de Deus (2 Crônicas 34:22-28). A presença de Hulda é significativa: em um dos momentos mais decisivos da história bíblica da reforma, a palavra autorizada vem por meio de uma mulher profetisa.
A identificação do “livro da lei” é debatida. Muitos estudiosos o relacionam a alguma forma de Deuteronômio ou tradição deuteronômica, especialmente pela ênfase em centralização do culto e fidelidade exclusiva. O texto de Crônicas não dá título moderno ao documento. O dado seguro é que sua leitura desencadeia reforma profunda.
Josias celebra uma Páscoa destacada, com organização sacerdotal e levítica minuciosa (2 Crônicas 35). Como em Ezequias, a Páscoa é mais que festa: é reordenação da identidade nacional em torno do templo, da Torá e da memória da libertação.
Mas Josias morre em confronto com Neco, rei do Egito. Crônicas acrescenta que Neco afirma falar por ordem de Deus, e que Josias não lhe dá ouvidos (2 Crônicas 35:21-22). Esse detalhe torna a morte de Josias mais complexa que em Reis. Mesmo um rei justo pode errar ao não discernir uma advertência.
A queda final: quando não há mais remédio
Os últimos reis de Judá passam rapidamente: Jeoacaz, Jeoaquim, Joaquim e Zedequias. O ritmo acelera. A narrativa mostra dependência de potências estrangeiras, infidelidade crescente, profanação do templo e rejeição dos mensageiros de Deus.
2 Crônicas 36 oferece uma das sínteses mais fortes da Bíblia sobre a queda: o Senhor enviou mensageiros “madrugando e enviando”, porque tinha compaixão do povo e de sua habitação; mas eles zombaram dos mensageiros, desprezaram palavras e escarneceram dos profetas, até que “não houve remédio” (2 Crônicas 36:15-16).
A expressão é dura. A queda não vem por falta de aviso. Vem depois de longa recusa. O templo é queimado, os muros de Jerusalém são derrubados, objetos sagrados são levados e os sobreviventes vão para Babilônia.
Crônicas interpreta o exílio também à luz dos sábados da terra, afirmando que a terra descansou até se cumprirem setenta anos (2 Crônicas 36:21). A referência dialoga com Levítico 26 e Jeremias, conectando exílio, terra, descanso e juízo. A catástrofe nacional é lida como consequência de uma história longa de desobediência.
O decreto de Ciro impede que o livro termine em ruína
O final de 2 Crônicas é surpreendente. Depois da destruição, o livro não termina com silêncio. Termina com Ciro, rei da Pérsia, declarando que o Senhor lhe deu todos os reinos da terra e o encarregou de construir uma casa em Jerusalém (2 Crônicas 36:22-23).
Esse encerramento é quase idêntico à abertura de Esdras. O efeito literário é forte: Crônicas termina apontando para retorno e reconstrução. O templo foi queimado, mas a história não acabou. A comunidade exilada recebe uma nova possibilidade.
O Cilindro de Ciro, documento persa do século VI a.C., não menciona Judá especificamente, mas confirma uma política imperial persa de restauração de cultos e retorno de imagens divinas a seus santuários em certas regiões. Esse dado não prova diretamente o decreto bíblico, mas combina com o contexto imperial mais amplo em que a autorização de retorno se torna historicamente plausível.
O final de Crônicas responde ao trauma do exílio com uma porta aberta. Não há rei davídico restaurado no trono. Não há independência política plena. Mas há templo a reconstruir, culto a reorganizar e povo convocado a subir.
O que 2 Crônicas ensina ao reler Reis
2 Crônicas ensina que a mesma história pode ser recontada com outra pergunta. Reis explicou a queda com ênfase em idolatria, culpa acumulada e juízo. Crônicas não nega isso, mas insiste mais na possibilidade de busca, humilhação, reforma e restauração.
O livro seleciona reis de Judá para mostrar padrões espirituais. Roboão se humilha e recebe alívio parcial. Asa começa confiando e termina falhando. Josafá ensina a lei, mas erra em alianças. Joás começa bem e termina mal. Uzias prospera e cai por orgulho. Ezequias restaura o culto. Manassés se humilha depois de profunda infidelidade. Josias reforma, mas sua morte mostra que até reis fiéis precisam discernir a palavra recebida.
Essa releitura não é ingênua. Crônicas sabe que Jerusalém caiu. Sabe que o templo foi queimado. Sabe que a dinastia perdeu o poder político. Mas, escrevendo depois da catástrofe, ele procura mostrar que a história de Judá também contém caminhos de retorno.
Para leitores instruídos, essa é a grande surpresa: 2 Crônicas não é apenas “versão mais religiosa” de Reis. É uma obra de reconstrução pós-exílica que transforma reis, levitas, templo e reformas em lições para uma comunidade que precisava recomeçar sem repetir a mesma infidelidade.
Por que 2 Crônicas molda o restante da Bíblia
2 Crônicas é decisivo porque fecha a grande releitura cronística com uma combinação de juízo e esperança. O livro começa com Salomão construindo a casa do Senhor e termina com Ciro autorizando sua reconstrução. Entre um templo e outro, Judá vive reformas, recaídas, profetas rejeitados, reis fiéis e infiéis, invasões, destruição e exílio.
Sua mensagem não é que o templo resolve tudo. O próprio templo foi destruído. Também não é que a linhagem davídica garante impunidade. Reis davídicos foram julgados. O ponto é outro: identidade sem fidelidade se perde; mas queda reconhecida com humilhação pode abrir caminho para restauração.
Crônicas encerra sua narrativa onde Esdras começará. Isso faz do final um convite. Depois de nomes, genealogias, Davi, Salomão, templo, reis e exílio, a última palavra prática é movimento: “Quem dentre vós é de todo o seu povo, que o Senhor seu Deus seja com ele, e suba” (2 Crônicas 36:23).
Depois de 1 Crônicas reconstruir Israel pela memória, 2 Crônicas mostra por que essa memória precisa virar fidelidade. A história de Judá não fracassou por falta de templo, ritos ou reis. Fracassou quando essas estruturas foram separadas da busca pelo Senhor. Ainda assim, o livro termina com uma ordem aberta: subir, reconstruir e recomeçar.
Esta reportagem é uma análise editorial baseada no texto bíblico de 2 Crônicas, em seu vocabulário hebraico e em contexto histórico-literário relacionado ao período pós-exílico, ao templo de Jerusalém, à monarquia de Judá, aos levitas, às reformas religiosas, ao exílio babilônico e ao decreto de Ciro. Ela não substitui a leitura integral do livro nem o estudo direto das fontes bíblicas, judaicas, cristãs e acadêmicas relacionadas.
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