Cântico de Salomão não é só alegoria: é o livro bíblico que devolve corpo e desejo à linguagem sagrada

Cântico de Salomão é um dos livros mais surpreendentes da Bíblia porque fala de amor, desejo, beleza corporal, ausência, encontro e atração sem transformar imediatamente esses temas em sermão moral, narrativa histórica ou doutrina explícita. Deus não é mencionado de forma direta no texto hebraico, não há templo no centro da cena, não há profeta denunciando reis, não há lei sendo proclamada, nem uma história linear com começo, conflito e resolução. O livro é poesia amorosa — e justamente por isso se tornou uma das obras mais debatidas, reinterpretadas e espiritualmente relidas da tradição bíblica.

Depois de Provérbios formar o leitor para viver com sabedoria e Eclesiastes desmontar a ilusão de controlar a vida, Cântico dos Cânticos abre outro campo da literatura sapiencial e poética: o desejo humano. O livro não pergunta como administrar o tempo, a riqueza ou a morte. Ele pergunta, por meio de imagens e vozes entrelaçadas, como o amor fala quando encontra beleza, distância, espera, busca e alegria.

O título hebraico é Shir ha-Shirim, literalmente “Cântico dos Cânticos”. A construção é superlativa, como “Santo dos Santos” ou “Rei dos reis”: indica o cântico por excelência, o cântico maior. A abertura associa a obra a Salomão: “Cântico dos Cânticos, que é de Salomão” (Cântico 1:1). Como em Provérbios e Eclesiastes, essa ligação salomônica pode indicar autoria, associação, dedicação ou tradição sapiencial vinculada ao rei conhecido por sabedoria, riqueza e poemas. O próprio texto não resolve todos os detalhes de composição.

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Um livro pequeno com recepção imensa

Cântico de Salomão tem apenas oito capítulos, mas sua história de interpretação é enorme. Na Bíblia hebraica, integra os Ketuvim, os Escritos, e pertence aos Megillot, os cinco rolos lidos em festas judaicas. Tradicionalmente, Cântico é associado à leitura de Pessach, a Páscoa judaica, o que favoreceu sua interpretação como poema do amor entre Deus e Israel.

Na tradição cristã, o livro foi frequentemente lido como imagem do amor entre Cristo e a Igreja, ou entre Cristo e a alma. Essa leitura alegórica marcou profundamente a teologia, a mística e a liturgia cristã. Autores antigos e medievais viam nos beijos, perfumes, jardins e câmaras do livro símbolos de comunhão espiritual.

Essas recepções são historicamente importantes e não devem ser descartadas como irrelevantes. Mas a leitura responsável precisa distinguir recepção teológica posterior e funcionamento literário imediato. Antes de ser alegoria de Israel, da Igreja ou da alma, Cântico é uma coleção de poemas de amor com linguagem corporal, sensorial e recíproca.

O desafio é não escolher entre extremos. Reduzir o livro a erotismo isolado do cânon bíblico empobrece sua recepção religiosa. Mas apagar seu erotismo em nome de uma alegoria total também empobrece o texto. O livro entrou na Bíblia sem deixar de falar de desejo.

Cântico participa de um mundo antigo de poesia amorosa

Cântico de Salomão não surgiu em um mundo sem poesia de amor. O antigo Oriente Próximo preservou canções, poemas e imagens amorosas em diferentes tradições, especialmente no Egito antigo e na Mesopotâmia. Textos egípcios de amor, por exemplo, usam linguagem de desejo, beleza, voz feminina, jardins, perfumes, flores, encontros e distância entre amantes. Em ambientes mesopotâmicos, também havia poesia associada ao amor, à fertilidade, ao casamento sagrado e a figuras divinas como Inanna/Ishtar.

Esses paralelos ajudam a situar Cântico em um ambiente literário antigo mais amplo. Eles não provam dependência direta de uma obra específica, nem autorizam dizer que Cântico seja simples adaptação de poesia estrangeira. O ponto mais seguro é outro: Israel conhecia um mundo em que amor, corpo, natureza, perfumes e desejo podiam ser trabalhados poeticamente com sofisticação.

A singularidade de Cântico está em sua presença dentro do cânon bíblico. Ao contrário de poemas amorosos preservados apenas como literatura cortesã, ritual ou lírica secular antiga, Cântico foi recebido como Escritura. Isso obriga o leitor a lidar com um fato teológico e literário: a Bíblia preserva um livro inteiro em que o amor humano é cantado com intensidade sensorial.

Essa comparação com o mundo antigo não diminui Cântico. Ela mostra que o livro fala a linguagem poética de seu tempo, mas a insere em uma biblioteca sagrada que também inclui Torá, profetas, salmos, sabedoria, exílio, juízo e esperança.

A voz feminina domina a poesia

Uma das características mais notáveis de Cântico dos Cânticos é a força da voz feminina. A mulher fala mais que o homem, inicia discursos, expressa desejo, busca o amado, descreve o corpo dele, convida, lamenta sua ausência e celebra o encontro. Em uma Bíblia composta em sociedades patriarcais antigas, isso é literariamente extraordinário.

Logo no início, ela diz: “Beije-me ele com os beijos de sua boca” (Cântico 1:2). A abertura é direta, corporal e ativa. O desejo não é apresentado primeiro como fala masculina sobre a mulher, mas como voz feminina que deseja.

Ela também declara: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu” (Cântico 6:3; 7:10). A relação aparece em linguagem de reciprocidade, não apenas posse unilateral. A mulher não é objeto silencioso de contemplação. Ela é sujeito poético.

Esse dado deve orientar toda a leitura. Cântico não é apenas um livro “sobre” a mulher amada. É um livro em que a mulher fala, deseja e interpreta sua própria experiência amorosa.

Amor sem narrativa linear simples

Cântico dos Cânticos não se organiza como romance moderno. Não há enredo contínuo claro, com cenas cronológicas facilmente reconstruíveis. O livro alterna vozes, imagens, buscas, encontros, descrições e refrões. Há a amada, o amado e as “filhas de Jerusalém”, um coro feminino que aparece em momentos importantes.

Essa estrutura levou intérpretes a diferentes propostas. Alguns leem o livro como drama com personagens definidos. Outros veem uma coleção de poemas amorosos organizados em sequência. Outros ainda destacam uma unidade poética mais ampla, com repetições, refrões e movimentos de desejo, busca e encontro.

O dado seguro é que Cântico trabalha por cenas poéticas, não por narração histórica convencional. A amada procura o amado à noite. O amado descreve a beleza dela. A mulher convida o amado ao campo. O jardim se abre. As filhas de Jerusalém são chamadas a não despertar o amor antes que ele queira.

Essa forma exige outro tipo de leitura. Cântico não deve ser reduzido a “o que aconteceu primeiro”. Sua lógica é a da memória amorosa, do desejo e da imagem.

“Não desperteis o amor antes que queira”

Um dos refrões mais importantes aparece em variações: “Conjuro-vos, ó filhas de Jerusalém... que não acordeis nem desperteis o amor, até que queira” (Cântico 2:7; 3:5; 8:4). Essa frase funciona como chave ética e poética.

O amor, em Cântico, é poderoso, mas não deve ser manipulado. Ele tem tempo próprio. Não pode ser forçado, artificialmente provocado ou tratado como impulso sem sabedoria. O refrão introduz cautela dentro de um livro intensamente desejante.

Essa tensão é essencial. Cântico celebra o desejo, mas não o banaliza. O amor é belo justamente porque exige tempo, consentimento, reciprocidade e maturidade. A frase não apaga a paixão; protege-a de despertar fora de hora.

Depois de Provérbios advertir contra a sedução destrutiva e Eclesiastes lembrar que há tempo para tudo, Cântico mostra o amor como força que precisa de tempo adequado. O desejo não é negado, mas deve ser respeitado.

Corpo e beleza sem vergonha

Cântico descreve corpos com imagens exuberantes: olhos como pombas, cabelos como rebanho, dentes como ovelhas, lábios como fita escarlate, pescoço como torre, seios como crias gêmeas, pernas como colunas, rosto, mãos, ventre, boca, perfume, pele e voz. Para leitores modernos, algumas comparações podem parecer estranhas, mas elas pertencem ao universo poético do antigo Oriente Próximo.

Essas imagens não pretendem funcionar como descrição fotográfica. São metáforas de vitalidade, simetria, fertilidade, força, raridade, nobreza e encantamento. O corpo amado é visto por meio do mundo: animais, jardins, torres, frutos, especiarias, montanhas, água e joias.

O mais importante é que o corpo não aparece como algo sujo ou indigno. Em Cântico, a corporeidade é celebrada. O desejo é cantado com linguagem elevada, não escondido como tema inferior.

Esse ponto é teologicamente significativo dentro do cânon. A Bíblia que fala de pecado, idolatria e juízo também preserva um livro inteiro que canta o amor corporal. Cântico impede uma espiritualidade que despreza o corpo como se a criação material fosse inimiga da fé.

O jardim como lugar do amor

Poucas imagens são tão centrais em Cântico quanto o jardim. A amada é comparada a “jardim fechado”, “fonte selada”, “pomar de romãs”, lugar de nardo, açafrão, canela, cinamomo, mirra, aloés e outras especiarias (Cântico 4:12-14). O amado é convidado a entrar em seu jardim e comer seus frutos excelentes.

O jardim concentra beleza, fertilidade, privacidade, perfume e desejo. Ele também evoca, para muitos leitores, o imaginário do Éden. O texto não menciona Gênesis diretamente, mas a associação é forte na recepção: homem, mulher, natureza, nudez poética, desejo e ausência de vergonha.

Essa conexão deve ser feita com cuidado. Cântico não é uma recontagem explícita de Gênesis 2. Mas, dentro da Bíblia, ele funciona como uma das imagens mais intensas de amor humano reconciliado com a criação. O jardim não é campo de culpa; é espaço de encontro.

A força do símbolo está nisso: o amor aparece como lugar cultivado, protegido e perfumado. Não é consumo rápido. É jardim.

Perfumes, especiarias e o mundo sensorial do antigo Oriente

Cântico é atravessado por perfumes: nardo, mirra, aloés, canela, incenso, bálsamos e fragrâncias. Esses elementos pertenciam ao universo de luxo, comércio, sedução, ritual, sepultamento, hospitalidade e nobreza no antigo Oriente Próximo.

A mirra, por exemplo, aparece como perfume precioso. O nardo era associado a fragrância rara. As especiarias vinham de redes comerciais amplas, conectando regiões distantes. Quando Cântico usa esse vocabulário, não está apenas embelezando a linguagem; está criando atmosfera de valor, desejo e riqueza sensorial.

O amor, no livro, é percebido por todos os sentidos: visão, tato, olfato, paladar e audição. A voz do amado importa. O perfume da amada importa. O sabor dos frutos importa. O toque e a presença importam.

Essa materialidade desafia leituras excessivamente abstratas. Cântico não fala do amor como ideia. Fala como experiência encarnada.

A busca noturna e a ausência do amado

Nem tudo em Cântico é encontro. Há também ausência, busca e frustração. Em Cântico 3, a mulher procura o amado à noite, pelas ruas e praças, e pergunta aos guardas se viram aquele a quem sua alma ama. Em Cântico 5, outra cena noturna é mais angustiante: o amado chega, mas a demora e a hesitação produzem desencontro; depois, a mulher sai à procura dele e é ferida pelos guardas da cidade.

Essas cenas mostram que o amor cantado no livro não é apenas posse tranquila. Há distância, atraso, vulnerabilidade e risco. A cidade pode ser espaço de busca, mas também de violência. Os guardas, que deveriam proteger, ferem.

A cena de Cântico 5 é especialmente difícil. O texto não explica tudo, mas informa que os guardas encontraram a mulher, bateram nela e lhe tiraram o manto. Essa violência deve ser reconhecida. O livro não é apenas idílio campestre; também mostra a exposição da mulher que busca seu amado em ambiente público.

A ausência intensifica o desejo. O amor de Cântico não é estático. Ele se move entre presença e perda, convite e espera, jardim e rua.

“Estou enferma de amor”

A amada diz às filhas de Jerusalém que está “enferma de amor” (Cântico 2:5; 5:8). A expressão descreve desejo intenso, quase físico. O amor é apresentado como força que afeta corpo, fala e disposição.

Essa linguagem pode soar exagerada para leitores modernos, mas pertence à poesia amorosa antiga. O desejo não é apenas escolha racional; é experiência que atravessa o corpo. Cântico sabe disso e não tenta domesticar completamente essa força.

Ao mesmo tempo, o livro coloca esse desejo em moldura poética refinada. A intensidade não é vulgarizada. Ela é trabalhada por metáforas, refrões e diálogo.

Cântico reconhece que o amor humano pode ser avassalador. Mas sua resposta não é censura automática. É canto.

O amado também é descrito pela mulher

Em Cântico 5:10-16, a mulher descreve o corpo do amado. Ele é distinto entre dez mil; sua cabeça é ouro, seus cabelos são ondulados, seus olhos como pombas, faces como canteiros de bálsamo, lábios como lírios, mãos como cilindros de ouro, ventre como marfim, pernas como colunas de alabastro.

Esse trecho é importante porque inverte expectativas. Em muita literatura antiga, o corpo feminino é descrito pelo olhar masculino. Em Cântico, a mulher também contempla, deseja e descreve. O amado é objeto de sua admiração poética.

A reciprocidade é uma das marcas mais fortes do livro. O homem canta a mulher; a mulher canta o homem. Ambos desejam. Ambos são belos no olhar do outro.

Essa reciprocidade não elimina o contexto patriarcal antigo, mas torna Cântico singular dentro dele. A mulher não é muda nem passiva. Ela vê.

“Eu sou morena e bela”

Em Cântico 1:5, a mulher diz: “Sou morena e bela”, dirigindo-se às filhas de Jerusalém. Ela explica que o sol a queimou e que os filhos de sua mãe a fizeram guardar vinhas; sua própria vinha ela não guardou.

A frase tem gerado muitas interpretações. O texto indica que sua aparência está ligada ao trabalho ao sol, possivelmente em contexto rural. Ela precisa afirmar sua beleza diante de um padrão urbano ou palaciano representado pelas filhas de Jerusalém.

O verso não deve ser usado para leituras raciais simplistas modernas sem cautela. O mundo antigo tinha outras categorias de cor, status, trabalho e beleza. O dado textual é que a mulher reivindica beleza apesar de marcas sociais e laborais associadas ao sol.

Essa abertura é poderosa. A amada não pede desculpas por sua aparência. Ela se nomeia bela. O livro começa dando a ela uma voz de autoafirmação.

Salomão: personagem, símbolo ou moldura?

Salomão aparece no título e em algumas referências internas. Cântico 3 descreve a liteira de Salomão, cercada por guerreiros. Cântico 8 menciona a vinha de Salomão em Baal-Hamom e contrasta, de modo enigmático, a vinha dele com a vinha da amada.

A função de Salomão no livro é debatida. Alguns leem Salomão como o amado. Outros veem o amado como pastor ou figura distinta do rei. Outros tratam Salomão como símbolo de esplendor, riqueza e desejo real, funcionando como moldura literária para poemas de amor.

O texto não oferece uma narrativa clara o suficiente para resolver todas as questões. O mais prudente é reconhecer que a tradição salomônica dá autoridade e ambiente sapiencial ao livro, mas a poesia não depende de identificar cada fala com segurança biográfica.

A presença de Salomão também cria tensão. O rei famoso por muitas mulheres em 1 Reis aparece ligado a um livro que canta amor intenso e particular. Alguns intérpretes veem nisso contraste entre amor exclusivo e acúmulo régio. Outros leem como idealização poética. O texto permite debate, mas não deve ser simplificado.

Amor forte como a morte

O clímax teológico e poético do livro está em Cântico 8:6-7: “Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço; porque o amor é forte como a morte, e duro como o Sheol o ciúme; suas brasas são brasas de fogo, chama intensa.” Muitas traduções trazem “labaredas do Senhor” ou “chama de Yah”, dependendo da leitura da expressão hebraica shalhevet-yah.

Esse é talvez o ponto mais próximo de uma referência divina explícita, embora debatido. Alguns entendem -yah como forma abreviada do nome divino; outros como intensificador superlativo, isto é, “chama poderosíssima”. A cautela é necessária. O texto permite perceber uma intensidade quase sagrada do amor, mas a formulação exata é discutida.

A comparação com a morte é impressionante. A morte é força inevitável. O amor, diz o poema, também é forte. Muitas águas não podem apagá-lo; rios não podem afogá-lo. Se alguém oferecesse todos os bens de sua casa pelo amor, seria desprezado.

Aqui o livro toca sua afirmação mais profunda: o amor verdadeiro não é mercadoria. Não pode ser comprado, subornado ou reduzido a troca econômica. Ele tem força própria, resistente, perigosa e preciosa.

O amor não pode ser comprado

A afirmação de que todos os bens da casa não comprariam o amor é uma das críticas mais fortes do livro. Em um mundo de alianças familiares, dotes, status, riqueza e casamentos arranjados, Cântico preserva a linguagem de um amor que não se reduz a transação.

Isso não significa que o livro descreva necessariamente casamento moderno por escolha individual. O contexto antigo era diferente. Mas a poesia insiste que o amor, em sua verdade, não é propriedade negociável.

Essa ênfase dialoga com a presença de jardins, vinhas e riqueza. Há bens no livro, há perfumes caros, há imaginário real. Mas o amor não é mais um item desse inventário.

Cântico desafia tanto a mercantilização do corpo quanto a espiritualização que nega o corpo. O amor não é produto nem abstração. É encontro.

Alegoria judaica: Deus e Israel

A leitura alegórica judaica tem raízes antigas e profundas. Cântico foi entendido como poema do amor entre o Senhor e Israel. O êxodo, a aliança, o Sinai, o templo, o exílio e a restauração foram lidos nas imagens do livro. Por isso, sua associação com Pessach é significativa: o amor do amado pela amada passa a iluminar a libertação e a eleição de Israel.

Essa recepção ajudou a garantir lugar central ao livro na tradição religiosa. Um poema tão sensorial poderia causar desconforto, mas a alegoria mostrou sua profundidade teológica. O amor humano tornou-se linguagem para falar do amor divino.

É importante, porém, não imaginar que a alegoria seja apenas fuga do sentido literal. Na tradição judaica, a relação entre Deus e Israel é frequentemente expressa por imagens conjugais em profetas como Oséias, Jeremias e Ezequiel. Cântico foi lido dentro desse universo simbólico.

Ainda assim, a leitura alegórica não apaga o nível poético humano. Ela se constrói sobre ele. Se o amor humano do livro fosse irrelevante, a metáfora perderia força.

Alegoria cristã: Cristo, Igreja e alma

No cristianismo, Cântico dos Cânticos tornou-se uma das obras favoritas da interpretação mística. O amado foi lido como Cristo; a amada, como a Igreja ou a alma. Beijos, perfumes, câmara, jardim e busca foram interpretados como imagens de comunhão espiritual, desejo por Deus, purificação e união mística.

Essa tradição produziu comentários teológicos de enorme influência. Orígenes, Gregório de Nissa, Bernardo de Claraval e muitos outros leram Cântico como mapa da vida espiritual. Para eles, a linguagem amorosa não era problema, mas recurso para falar do desejo da alma por Deus.

A leitura cristã também foi marcada por Efésios 5, onde a relação entre marido e mulher é associada ao mistério de Cristo e da Igreja. Isso reforçou a recepção nupcial do livro.

Como na tradição judaica, a questão é distinguir níveis. A leitura cristológica é uma recepção teológica posterior. O texto imediato continua sendo poesia amorosa hebraica. A riqueza do livro está justamente em permitir que o amor humano seja lido, sem ser negado, como linguagem capaz de apontar para comunhão maior.

Por que o livro quase não menciona Deus?

A ausência explícita de Deus em Cântico, como em Ester, chama atenção. Mas os dois livros funcionam de modo diferente. Ester fala de sobrevivência judaica na diáspora e de providência oculta. Cântico fala de amor humano, desejo e beleza sem transformar tudo em discurso religioso direto.

Essa ausência pode ser entendida como confiança na bondade da criação. O livro não precisa interromper cada imagem para dizer que o amor é dom de Deus. Ao entrar no cânon, sua celebração do amor passa a ser lida dentro de uma visão bíblica em que corpo, desejo e criação pertencem ao mundo feito por Deus.

A possível expressão shalhevet-yah em Cântico 8:6 permanece debatida. Mesmo que seja lida como referência ao Senhor, ela é discreta e poética, não doutrinária.

Cântico ensina por presença, não por explicação. Ele mostra que o amor humano pode ter lugar na Escritura sem precisar ser justificado a cada verso por linguagem religiosa explícita.

Cântico e Gênesis: ecos do amor antes da vergonha

Muitos leitores percebem ecos de Gênesis em Cântico. No Éden, homem e mulher aparecem nus e sem vergonha antes da ruptura. Em Cântico, o corpo é celebrado sem pudor destrutivo. Jardins, frutos, animais, desejo e reciprocidade criam um ambiente que lembra uma criação reconciliada.

Essa leitura deve ser apresentada como eco literário e teológico, não como citação direta obrigatória. O livro não menciona Adão e Eva. Mas, dentro do conjunto bíblico, Cântico funciona como uma espécie de contracanto ao mundo de desejo ferido, domínio e vergonha que aparece depois de Gênesis 3.

A mulher deseja e fala. O homem deseja e responde. A natureza participa da linguagem. A cidade ameaça, mas o jardim preserva encontro. O amor aparece como sinal de que a criação ainda contém beleza.

Por isso, Cântico é tão importante. Ele impede que a Bíblia seja lida como se a sexualidade fosse apenas problema. Antes de ser risco, o amor é dom.

O livro também conhece vulnerabilidade

Apesar de sua celebração do amor, Cântico não é ingênuo. Há espera, ausência, mal-entendidos, ferida, exposição pública e advertência para não despertar o amor antes do tempo. O amor é forte como a morte, mas justamente por isso exige cuidado.

Essa dimensão impede transformar o livro em romantização simples. O desejo pode ser belo, mas também torna vulnerável. Quem ama pode buscar e não encontrar. Pode ser ferido. Pode esperar. Pode chamar e não ser respondido imediatamente.

Cântico não oferece manual de relacionamento. Oferece poesia sobre a intensidade do amor. A sabedoria está em ouvir suas imagens sem domesticá-las demais.

A beleza do livro não está em resolver o amor. Está em deixá-lo cantar.

Cântico diante de Provérbios e Eclesiastes

A posição de Cântico ao lado de Provérbios e Eclesiastes na tradição salomônica cria uma tríade sapiencial notável. Provérbios ensina prudência, disciplina e temor do Senhor na vida cotidiana. Eclesiastes mostra os limites da sabedoria, do trabalho e do prazer diante da morte. Cântico celebra o amor como experiência que não pode ser comprada nem reduzida a controle.

Juntos, esses livros impedem leituras desequilibradas. Provérbios adverte contra a sexualidade destrutiva. Cântico celebra o desejo recíproco. Eclesiastes lembra que prazer não pode carregar o sentido absoluto da vida. Cântico mostra que prazer recebido como amor pode ser linguagem de beleza.

Essa tensão é bíblica. A Escritura não fala de desejo com uma única voz plana. Ela adverte, limita, celebra e transforma o amor em poesia.

Cântico ocupa exatamente esse lugar: não como licença para qualquer desejo, nem como alegoria que elimina o corpo, mas como canto da força do amor no mundo criado.

Por que Cântico de Salomão molda a Bíblia

Cântico é decisivo porque preserva dentro da Bíblia uma linguagem do amor humano que não se envergonha do corpo. Ele mostra que desejo, beleza e reciprocidade podem ser matéria de poesia sagrada. Isso é mais radical do que parece.

O livro também obriga intérpretes a lidar com camadas de sentido. Há o poema amoroso em sua força literal. Há a recepção judaica sobre Deus e Israel. Há a leitura cristã sobre Cristo, a Igreja e a alma. Há a leitura canônica que aproxima o jardim de Cântico do Éden e da restauração do amor criado. Nenhuma dessas camadas deve apagar as outras.

Cântico ensina ainda que a Bíblia não fala apenas quando manda, proíbe, narra ou julga. Ela também canta. E há verdades que só podem ser ditas em forma de canto.

Depois de Eclesiastes lembrar que tudo passa como vapor, Cântico responde sem negar a finitude: o amor também é frágil, mas é forte como a morte. Não pode ser comprado. Não deve ser despertado à força. Não cabe em explicações rápidas. Por isso, o “Cântico dos Cânticos” permanece como a grande celebração bíblica do amor que deseja, busca, espera, encontra e canta.

Esta reportagem é uma análise editorial baseada no texto bíblico de Cântico de Salomão, em seu vocabulário hebraico e em contexto histórico-literário relacionado à poesia amorosa do antigo Oriente Próximo, à tradição salomônica, aos Megillot, à recepção judaica e cristã do livro, ao simbolismo do jardim e à linguagem bíblica do amor, do corpo e do desejo. Ela não substitui a leitura integral do livro nem o estudo direto das fontes bíblicas, judaicas, cristãs e acadêmicas relacionadas.

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