Por que Deus chamou Jacó de Israel novamente em Betel

Depois do luto por Débora, a narrativa reúne em uma única cena a identidade do patriarca, a fecundidade da família, o surgimento de reis e a transmissão da terra.

Jacó já havia recebido o nome Israel quando Deus volta a pronunciá-lo em Betel. A repetição, longe de ser um detalhe secundário, expõe uma das tensões centrais de Gênesis 35:9-15: o novo nome é confirmado formalmente, mas o antigo continua sendo usado pelo próprio narrador quase imediatamente. Ao mesmo tempo, antigas promessas feitas a Abraão e Isaque são concentradas sobre Jacó, agora de volta a Canaã.

A cena ocorre depois da morte de Débora e antes de outra perda ainda mais próxima: Raquel morrerá durante o parto de Benjamim. Entre esses dois funerais, Gênesis insere uma manifestação divina que projeta povos, reis e posse da terra para o futuro.

A promessa não elimina o luto nem transforma a casa de Jacó em uma família estabilizada. Ela avança no interior de um grupo que acabara de fugir de Siquém, perdera uma antiga servidora de Rebeca e ainda enfrentaria novas rupturas.

Por que o nome Israel é pronunciado outra vez

Gênesis 35:9 abre a cena informando que Deus apareceu novamente a Jacó “quando ele voltou de Padã-Arã” e o abençoou.

A formulação funciona como uma visão retrospectiva do retorno. Jacó não acabara de cruzar a fronteira da Mesopotâmia: desde sua saída da casa de Labão, já havia passado pelo encontro com Esaú, permanecido em Sucote, comprado terras perto de Siquém e enfrentado a crise provocada pelo massacre da cidade.

“Quando voltou de Padã-Arã”, portanto, resume uma etapa ampla da trajetória. A frase apresenta Betel como o ponto em que o retorno recebe confirmação divina, mesmo depois de vários acontecimentos intermediários.

Deus então declara:

“Teu nome é Jacó; já não te chamarás Jacó, porém Israel será o teu nome.”

A dificuldade está no fato de que a mesma mudança já havia sido anunciada em Gênesis 32:28. Depois da luta noturna junto ao Jaboque, o personagem misterioso disse que Jacó não seria mais chamado assim, mas Israel, “pois lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste”.

Os dois episódios compartilham a mudança de nome, mas ocupam posições narrativas distintas.

No Jaboque, Israel emerge de uma noite de confronto. Jacó atravessa o rio sozinho, luta até o amanhecer, sai ferido e encontra Esaú carregando no corpo a marca daquele encontro. Em Betel, o nome aparece dentro de uma bênção formal que inclui fecundidade, povos, reis e terra.

A repetição pode ser lida, na narrativa final, como integração da experiência pessoal de Jacó ao futuro coletivo de sua descendência. Junto ao Jaboque, o nome está associado à luta; em Betel, à promessa.

Gênesis, contudo, não passa a usar exclusivamente “Israel”. A própria cena demonstra isso. Depois de Deus afirmar que o patriarca não seria mais chamado Jacó, os versículos 14 e 15 voltam a dizer que “Jacó” ergueu a coluna e chamou o lugar de Betel.

Essa alternância imediata impede interpretar a fórmula como proibição absoluta do nome antigo. “Israel” marca uma nova identidade e um destino, mas “Jacó” continua designando o mesmo personagem. Mais tarde, os dois nomes também serão aplicados ao povo descendente dele.

A explicação fornecida em Gênesis 32 associa Israel à luta com Deus e com seres humanos. Essa é a etimologia narrativa apresentada pelo livro. A formação linguística histórica do nome, porém, continua discutida, e não deve ser reduzida sem ressalvas a uma única análise filológica.

Gênesis 35 não repete a explicação do Jaboque. Apenas reafirma o nome e o conecta às promessas que seguem.

El Shaddai, fecundidade e uma comunidade de povos

Depois de confirmar a identidade, Deus se apresenta:

“Eu sou El Shaddai; sê fecundo e multiplica-te.”

A expressão El Shaddai é tradicionalmente traduzida como “Deus Todo-Poderoso”. A origem de Shaddai, porém, permanece incerta. Diferentes propostas filológicas buscaram relacioná-la a poder ou a termos semíticos ligados à montanha, enquanto interpretações tradicionais posteriores lhe atribuíram outras nuances. Nenhuma explicação etimológica alcançou consenso suficiente para resolver definitivamente o título.

O contexto de Gênesis oferece uma base mais segura. No livro, El Shaddai aparece repetidamente ligado à fecundidade, à multiplicação da descendência e à continuidade da promessa.

Em Gênesis 17:1, Deus se apresenta a Abraão como El Shaddai antes de anunciar a multiplicação da família e a mudança de Abrão para Abraão. Em Gênesis 28:3, Isaque pede que El Shaddai abençoe Jacó, o torne fecundo e faça dele uma comunidade de povos.

Em Betel, a bênção paterna reaparece como declaração divina.

A ordem “sê fecundo e multiplica-te” retoma uma linguagem muito anterior à história patriarcal. Em Gênesis 1:28, a humanidade recebe a bênção de frutificar e multiplicar-se. Depois do dilúvio, Noé e seus filhos ouvem palavras semelhantes em Gênesis 9:1.

Aplicada a Israel, a fórmula vincula a descendência de Jacó ao tema mais amplo da continuidade da vida. O patriarca já possuía muitos filhos, mas a promessa ultrapassa a estrutura atual da casa e projeta uma coletividade futura.

A fala prossegue:

“Uma nação e uma comunidade de nações procederão de ti, e reis sairão de teus lombos.”

A expressão traduzida como “comunidade de nações” é qehal goyim. Qahal pode significar assembleia, comunidade ou congregação reunida; goyim é o plural de goy, povo ou nação.

A construção admite traduções como “assembleia de povos”, “comunidade de nações” ou “conjunto de povos”. O versículo não identifica individualmente essas coletividades nem explica como se formariam.

Dentro de Gênesis, a pluralidade dos filhos de Jacó oferece o primeiro horizonte narrativo para a promessa. Eles serão apresentados como ancestrais das tribos de Israel. Isso ajuda a compreender a passagem de uma casa patriarcal para uma comunidade mais ampla, mas não resolve cada detalhe da expressão.

A palavra goyim também não deve ser automaticamente limitada a povos estrangeiros. No hebraico bíblico, goy pode designar diferentes coletividades, inclusive Israel em determinados contextos.

A promessa de reis recupera declarações feitas a Abraão e Sara em Gênesis 17. Deus havia dito que reis procederiam deles; agora a expectativa é vinculada diretamente à descendência de Jacó.

“Reis sairão de teus lombos” emprega uma expressão corporal de descendência. O versículo não identifica tribo, dinastia ou governante específico. Leituras posteriores podem relacionar a declaração à monarquia israelita e à importância de Judá, especialmente à luz de Gênesis 49:10, mas Gênesis 35:11 ainda não menciona Judá, Davi ou qualquer rei determinado.

A distância entre promessa e realidade imediata é expressiva. Jacó não governa um território. Sua casa vive em tendas, atravessa regiões ocupadas por cidades estabelecidas e acabara de escapar de uma possível perseguição.

A linguagem de povos e reis é dirigida a uma família numerosa, mas ainda politicamente vulnerável.

A promessa da terra passa de Abraão e Isaque a Jacó

Depois de anunciar descendência e governantes, Deus declara:

“A terra que dei a Abraão e a Isaque, a ti a darei; e à tua descendência depois de ti darei a terra.”

A formulação organiza explicitamente a sucessão patriarcal: Abraão, Isaque, Jacó e a descendência futura.

Não se trata da terceira vez, em termos numéricos, que Gênesis menciona a terra. A promessa já havia sido repetida em diferentes ocasiões. O ponto específico de Betel é sua vinculação formal à terceira geração patriarcal.

Jacó está de volta a Canaã, mas não possui a terra no sentido político projetado pela promessa. Ele monta acampamentos, compra parcelas, ergue altares e negocia sua permanência entre populações locais.

Abraão viveu situação semelhante. Recebeu a promessa, mas sua aquisição territorial mais detalhada em Gênesis foi a propriedade funerária de Macpela. Isaque também permaneceu em Canaã entre deslocamentos, disputas por poços e acordos com outros grupos.

A linguagem divina apresenta a terra como concedida, embora a narrativa continue mostrando os patriarcas como residentes móveis, sem controle político amplo do território. Essa tensão entre promessa e posse histórica não deve ser eliminada por harmonização.

O versículo também não fornece fronteiras, cronograma ou processo de ocupação. Seu interesse está na continuidade da promessa dentro da família escolhida pelo relato.

A afirmação pertence ao mundo literário e religioso do antigo Israel. Transportá-la automaticamente para disputas territoriais modernas, sem considerar contextos históricos, gêneros textuais e desenvolvimentos posteriores, ultrapassa a função imediata de Gênesis 35.

Na cena de Betel, a terra é antes de tudo o elo que conecta três gerações patriarcais e projeta a descendência de Jacó para além de sua existência.

Deus sobe, e Jacó responde com pedra, libação e azeite

Encerrada a fala, Gênesis afirma que Deus “subiu de junto dele, no lugar onde falara com ele”.

A passagem não descreve a aparência divina nem explica o mecanismo da subida. Linguagem semelhante aparece em Gênesis 17:22, depois da comunicação com Abraão. O movimento marca o encerramento da manifestação.

Jacó responde erguendo uma coluna de pedra, uma matsebah. Sobre ela, derrama uma libação e depois azeite.

O gesto retoma sua primeira passagem por Betel. Em Gênesis 28, depois do sonho, Jacó havia tomado a pedra usada como apoio, colocado-a em pé e derramado azeite sobre ela.

Gênesis 35 não informa se a nova coluna era a mesma pedra. A associação literária é forte porque os episódios ocorrem no mesmo lugar e envolvem o mesmo gesto, mas a identidade material não pode ser comprovada pelo relato.

A matsebah não possui uma única função em Gênesis. Pode atuar como memorial de encontro, testemunho de acordo ou marca funerária. Jacó ergue uma coluna no pacto com Labão em Gênesis 31:45 e outra sobre a sepultura de Raquel em Gênesis 35:20.

Em Betel, a pedra responde à manifestação divina.

Textos legais posteriores complicam a comparação. Êxodo 23:24, Êxodo 34:13 e Deuteronômio 7:5 ordenam a destruição de colunas cultuais dos povos de Canaã. Deuteronômio 16:22 apresenta uma proibição mais abrangente contra erguer uma matsebah.

Essa legislação não deve ser ignorada, mas também não pode ser retrojetada sem distinção sobre a narrativa patriarcal. Em Gênesis 35, a coluna de Jacó é apresentada positivamente como memorial do encontro com Deus. Os textos pertencem a contextos literários e cultuais diferentes, e a tensão entre eles deve ser reconhecida em vez de apagada.

A libação acrescenta um elemento ausente da primeira visita. O termo hebraico nesekh designa um líquido derramado como oferta. Gênesis 35 não identifica a bebida. Vinho aparece em libações de outras passagens bíblicas, mas especificá-lo aqui ultrapassaria o versículo.

Depois da libação, Jacó derrama azeite sobre a coluna. Não há menção de sacrifício animal, sacerdote, edifício sagrado ou cerimônia pública. A resposta registrada é material e concentrada: pedra erguida, líquido derramado e azeite.

Por que Betel recebe novamente o mesmo nome

O bloco termina com outra repetição:

“Jacó chamou Betel ao lugar onde Deus lhe falara.”

O local já havia recebido esse nome em Gênesis 28:19. Além disso, Gênesis 35:7 registrara pouco antes a construção de um altar e o nome El-Betel.

A duplicação não deve ser ocultada.

Na crítica das fontes, parte dos estudiosos atribui Gênesis 35:9-15 a uma camada sacerdotal, distinguindo esse bloco das tradições preservadas em Gênesis 28 e 32. Essa reconstrução procura explicar a repetição da mudança de nome, da manifestação em Betel e da nomeação do lugar.

Trata-se, porém, de uma hipótese composicional, não de informação declarada pelo próprio capítulo. Modelos de formação do Pentateuco continuam discutidos, e diferentes estudiosos distribuem os materiais de formas distintas.

Na leitura da narrativa final, a repetição produz outro efeito. Jacó retorna ao lugar onde havia feito um voto, recebe novamente a promessa e ratifica o nome associado à antiga experiência.

O segundo ato não precisa ser entendido como a primeira criação histórica do topônimo. Pode funcionar como reafirmação de Betel depois do retorno e da renovação das promessas.

As duas abordagens trabalham em níveis diferentes. A crítica das fontes procura explicar como as duplicações podem ter surgido na composição do livro. A leitura literária observa o papel que elas desempenham na forma final de Gênesis.

O dado documental permanece: tanto o nome Israel quanto o nome Betel são pronunciados mais de uma vez.

Essa insistência conecta duas etapas da vida de Jacó. O lugar onde ele recebeu uma promessa enquanto fugia sozinho torna-se o cenário onde o futuro de sua descendência é anunciado. O nome recebido durante uma luta noturna passa a concentrar povos, reis e terra.

O capítulo não registra uma resposta verbal de Jacó. Não informa o que seus filhos compreenderam nem descreve qualquer reação coletiva. A coluna, a libação e o azeite constituem a resposta preservada.

Em Gênesis 35:9-15, Israel deixa de ser apenas o nome do homem que lutou e sobreviveu. Torna-se a identidade sobre a qual o relato projeta uma comunidade futura, enquanto “Jacó” continua acompanhando o personagem que ainda viajará, sofrerá perdas e verá sua casa enfrentar novas crises.

Esta reportagem analisa Gênesis 35:9-15 em diálogo com Gênesis 17, 28 e 32. As conexões intrabíblicas esclarecem a repetição das promessas e dos nomes, mas não resolvem definitivamente a etimologia de Shaddai, a formação linguística de Israel ou a composição literária dos episódios duplicados.

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